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círculo psico-orgânico e ciclos arquetípicos na arteterapia

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Ana Luisa Baptista

A natureza da vida depende de completar ciclos de expressão energética criados pela forma. O sentido de um ciclo é aceitá-lo e segui-lo

Strephon Kaplan-Williams

OS CICLOS ARQUETÍPICOS

Na Psicologia Analítica o desenvolvimento da psiquê parte de um estado original de indiferenciação.

Neumann denominou este estado inicial de Ourobórico, representado mitológicamente pelo Ouróboros – imagem alquímica do dragão que se engendra e engole a própria cauda, devorando a si mesmo – expressando a continuidade do início e do fim.

O Ouróboros representa “o redondo que contém”. O autocontido, onde os opostos macho e fêmea, pai e mãe, princípio e fim se unem. Não há antes nem depois, só a eternidade Tudo é envolvente e contém, circunda, protege, preserva e nutre. O mundo é dotado de duplo sentido: o que é interno é externo e o que é externo é igualmente interno.

Durante este estágio inicial, há predominância absoluta do inconsciente. Vivencia-se o obscuro, o Caos onde tudo existe, mas nada tem uma forma específica.

Com o nascimento, a criança passa a viver o estágio da Ouróboros Maternal, caracterizado pela relação mãe-que-alimenta e bebê. A mãe torna-se, então, o próprio destino da criança, “cuja natureza é pertencer à mãe e ser parte dependente desta”.

Nesta fase, a “relação primal funciona para a criança como possibilidade de relacionamento com o próprio corpo, com o Self, com o “tu” e com o mundo”. Tal relação é determinante para o sentimento de existir da criança.

No nível corporal, o Ego e a consciência se encontram a mercê dos instintos, das sensações e das reações provindas do ambiente e do corpo. Não há ordenação, centralização, aceitação e recusa, visto que o Ego ainda não se diferenciou da matriz do inconsciente.

Posteriormente, o desenvolvimento da personalidade se processa através de quatro Ciclos Arquetípicos: Matriarcal, Patriarcal, Alteridade e Cósmico. Estes, porém, são “evolutivos-estruturantes”, referindo-se: “… a transformação progressiva da consciência, mais adiante, ao mesmo tempo, a imutabilidade do arquétipo que rege a sua transformação”.

O Ciclo Matriarcal é considerado o mais arcaico, visto que a consciência, nesta fase, opera muito próximo do inconsciente, permitindo a vivência da magia, do ocultismo, da superstição, da sensualidade, do instinto, da criatividade e da regressividade.

Ao se configurar como imagem arquetípica, a Grande Mãe se manifesta em sua bipolaridade. Por um lado, traz as imagens de aconchego, de proteção, por outro, de possessão, de destruição, da mãe
devoradora.

Aqui a personalidade começa a emergir, mas ainda está mergulhada no inconsciente. Vivencia-se um mundo regido pelos desejos, pelo princípio do prazer, da fertilidade e da sensualidade. Há uma intensa proximidade afetivo-corporal, visto que o Self, nesta fase, é apenas corporal.

A vivência do espaço-corpo passa a se definir na relação entre essas polaridades. A mãe “transforma” desconforto em conforto, dor em prazer, frio em aquecimento, molhado em seco. Nesse dinamismo a criança vivencia um mundo de opostos complementares, pois o meio externo se apresenta de forma binária: calor-frio, seco-molhado, amor-ódio. Estes são os primeiros organizadores da consciência.

A mãe trás para a criança a vivência da corporificação, criando um dentro e um fora. É a vivência do “corpo que dá limites à personalidade”, de forma que o sujeito passa a perceber um Eu e um Não Eu.

Em seu desenvolvimento progressivo, a consciência começa a se distanciar do inconsciente.

A criança agora vivencia também a lógica patriarcal que tem suas bases nas ideias e ações previamente determinadas. Seus princípios são as regras, as normas, o dever, a tarefa e a coerência. Entra no Ciclo
Patriarcal.

Desenvolve a capacidade de recordar-se e de ligar-se ao ambiente, conseguindo integrar sensações e observações passadas e presentes. Internaliza a noção de continuidade, passa a ter memória da própria história, percebendo um ontem, um hoje e um amanhã. O tempo torna-se um regulador da vida neste período.