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A Arteterapia e o Ser Arteterapeuta em Questão

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Ana Luisa Baptista

Nos últimos 50 anos, a Arteterapia vem buscando um campo unificado de conceituação a respeito de sua ação terapêutica. Ao longo dos anos vem se constituindo não só como método psicoterápico, mas como um método terapêutico que se insere nas áreas de Saúde, Educação e Artes, nos continentes Europeu, Asiático e Americano.

O termo Arteterapia abrange os instrumentos e as técnicas de diferentes canais expressivos, a saber: Música, Expressão Corporal, Artes Visuais, Literatura e Artes Cênicas, permeados por uma leitura simbólica do fazer artístico.

Tem, portanto, na arte um instrumento essencial para o desenvolvimento humano. As atividades artísticas têm efeitos terapêuticos e são até mesmo auto-curativas, pois a arte tem a possibilidade de ajudar na revelação do inconsciente. Possibilita ao indivíduo expressar seus conteúdos conflitivos e/ou traumáticos através de suas produções artísticas. Ao utilizar a arte com fins terapêuticos, deixa-se de privilegiar aspectos estéticos.

A Arteterapia baseia-se no conhecimento “… de que todo o indivíduo, quer tenha ou não o treino da arte, tem uma capacidade latente para projetar seus conflitos interiores em formas visuais” (Andrade, 1995). Parte do princípio que a vida psíquica tem uma tendência inata para a auto-organização e auto-regulação, como nos diz Jung e Paul Boyesen. O processo terapêutico através da arte poderá dinamizar estas tendências.

A prática da Arteterapia possibilita ao sujeito decifrar seu mundo interno, deparando-se com as imagens que a energia psíquica aí configura. A compreensão destas formas simbólicas possibilita o confronto com o inconsciente, e a tomada de consciência de seus conteúdos, uma vez que o mundo das emoções e o mundo das coisas concretas não está separado por fronteiras intransponíveis. Na realidade ambos permeiam-se no dia a dia, e este fato é particularmente manifesto nas obras de artes plásticas, literárias, nas letras das músicas, nos gestos e na criação e caracterização de personagens.

É, portanto, um processo terapêutico que se baseia na criação e análise de séries de produções artísticas, que isoladas, poderão oferecer dificuldades para serem decodificadas. Mas quando vistas sequencialmente, estas permitem acompanhar com bastante clareza o desdobramento de processos intra-psíquicos e identificar temas que possuam relação significativa com os indivíduos atendidos. Tais produções, tal qual os sonhos, indicam temáticas diversas e a existência de uma continuidade no fluxo de imagens do inconsciente.

O olhar do arteterapeuta para a criação artística tem por base o modelo teórico que o caracteriza: junguiano, gestáltico, comportamental, psicanalítico, antroposófico, psico-orgânico, centrado na pessoa, bioenergético, construtivista etc.

O campo de atuação da Arteterapia é vasto, podendo ser um recurso utilizado nas mais diversas áreas, a saber:

  1. na área Clínica com atendimentos individuais e em grupos a crianças, adolescentes, adultos, anciões, portadores de deficiências, portadores de distúrbios orgânicos/psíquicos, famílias, casais. Ou em grupos com um perfil específico (gestantes, presidiários, drogadiços, agressores, vítimas de violência etc). É também utilizada como técnica psicodiagnóstica.
  2. na área Educacional, tanto como releitura das atividades pedagógicas, como meio facilitador de capacitação de profissionais, na orientação profissional e no apoio psicopedagógico a portadores de dificuldade e distúrbios de aprendizagem, como instrumento de intervenção em atividades pedagógicas específicas (reuniões pedagógicas, reuniões de pais, processo de adaptação ou desligamento etc). No apoio ás ações de inclusão escolar, na motivação para o aprendizado, no suporte para portadores de altas habilidades, no estímulo ao desenvolvimento de competências sociais, nos programas de prevenção e tratamento do Bullying, de educação afetivo-sexual e de educação ambiental, na prevenção do abandono escolar; na adaptação de imigrantes ou de minorias étnicas. No trabalho de Orientação Profissional ao jovem que ingressa o Ensino Médio Técnico ou está terminando seus estudos na busca de uma escolha profissional. No cuidado com a dimensão estética e cultural do fazer artístico na escola, integrando a multiplicidade das linguagens artística ao cotidiano escolar, atuando junto a equipe de profissionais da escola, alunos, famílias e comunidade, através da função de Atelierista.
    O foco do trabalho arteterapêutico na escola está na construção de subjetividade humana e as relações que se estabelecem no espaço escolar.
  3. na área Hospitalar, com atendimentos a pacientes no leito em enfermarias, ou quando recebem tratamentos específicos como por exemplo a quimioterapia, a hemodiálise e outros. Também individualmente ou junto a seus familiares/cuidadores nos quartos e UTIs. Ou através de oficinas e ateliês arteterapêuticos, com grupos de reflexão específicos, com grupo de apoio aos familiares, com grupo de apoio a enlutados. É utilizada também na capacitação, apoio e sensibilização da equipe técnica, na minimização de danos causados por internações prolongadas, nos ambulatórios na dinamização de Salas de Espera com propostas diferenciadas, nas Classes Escolares, sendo um apoio ao educador que acompanha crianças em hospitais.
    Na continuidade da hospitalização ou em situações em que o sujeito não pode se deslocar, a Arteterapia é utilizada no trabalho com Home Care com finalidades terapêuticas para pacientes, familiares e cuidadores.
  4. na área de Saúde Mental, através de ateliês e oficinas expressivas, no atendimento clínico e de apoio psicossocial, no acompanhamento terapêutico com paciente e familiares, na inserção e reinserção social, no apoio aos familiares; na capacitação de equipe técnica, no Acompanhamento Terapêutico realizado em casa e na comunidade;
  5. na área de Reabilitação, é um meio de integração e inclusão para pessoas com as mais diversas dificuldades. Explorando o aspecto sensorial do fazer artístico, a Arteterapia possibilita uma interação entre sujeito-objeto e meio externo, de forma a possibilitar a criação e recriação de formas individuais e no coletivo. Oportuniza ao sujeito receber uma gama de estímulos sensoriais e elaborá-los, favorecendo, por um lado, o mergulho num espaço interno para, posteriormente, voltar-se para o mundo exterior, reconhecendo as próprias limitações e potencialidades. Favorece a socialização podendo ser aplicada em grupos que tenham pessoas com ou menos limitações de ordem física e/ou emocional.
  6. na área Empresarial/Organizacional, pode ser utilizada para estabelecer diagnósticos, recrutar e selecionar pessoal, capacitar tecnicamente, na gestão de conflitos, stress e na melhoria da comunicação em geral, na motivação para a realização de mudanças propostas pela empresa, no desenvolvimento de habilidades técnicas e pessoais, ou e em qualquer espaço organizacional que se proponha a um processo reflexivo acerca de sua atuação. Também na preparação para aposntadoria e no acompanhamento do indivíduo que se desliga de uma empresa após uma vida inteira a ela dedicada.
  7. na área de Adicção, com todas as possibilidades de compulsões, sejam elas de substâncias químicas ou não, atuando em composição de equipe interdisciplinar, atendendo individualmente e/ou em dinâmica de oficinas para grupos, dando suporte a famílias, buscando a reestruturação e reorganização mental do indivíduo e de seus familiares;
  8. na área Artística, em Oficinas de Sensibilização Através da Arte em propostas diversas, nos Laboratórios Arteterapêuticos de Estimulação Sensorial, em Exposições Interativas ou Temáticas com finalidades de auto conhecimento e livre expressão, na Formação e Preparação de Atores para interpretação das mais diversas personagens.
  9. na área Social, no apoio a desempregados, na prevenção à violência, na violência doméstica, na toxicodependência, nos abrigos de uma maneira geral; na reinserção de reclusos (abrigados, penitenciários, doentes mentais etc); no trabalho junto à população de risco; nas ações de mobilização comunitária; no fortalecimento da identidade cultural; no resgate social de menores em riscos, nos programas de geração de renda.


Enfim a Arteterapia pode ser utilizada em todos os campos e espaços onde o humano se faz presente e a livre expressão seja tanto incentivada, como acolhida, focalizando o auto conhecimento.