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Mitologia e Arteterapia
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Ana Luisa Baptista
Maria de Lourdes de Campos Ribeiro
“A Idade Média, a Antiguidade e a Pré-história ainda não estão extintas, como muitos ‘esclarecidos’ pensam, mas continuam alegremente vivas, em segmentos significativos da população. As mais antigas mitologias e magias continuam, como sempre, prosperando em nossos meios e só são ignoradas por alguns poucos que se distanciaram do seu estado original, através da educação racionalista. Sem levar em conta a simbologia eclesiástica, visível em toda parte, que corporifica uma história espiritual de seis milênios e a repete constantemente, os seus parentes pobres, ou seja, os conceitos e rituais mágicos, continuam vivos, apesar de toda instrução escolar“.
C. G. Jung
Civilização em Transição
O que é o mito?
Parafraseando Santo Agostinho, “Se me perguntam se sei o que é, eu sei; quando me pedem para dizer o que é, não sou capaz de fazer”. De fato, quando perguntamos o que é mito, somos sempre capazes de responder algo, mas se o quisermos fazer corretamente, teremos praticamente tantas respostas quantas são as várias correntes determinantes do pensamento nas várias épocas e, nenhuma delas será jamais completamente satisfatória.
O Mito é uma fala, uma comunicação, sendo portanto uma mensagem. Mas, mesmo sem que nada entendamos sobre assunto, de imediato, percebemos que esta não é uma fala comum.
A linguagem verbal, em si, já é uma conquista bastante evoluída do Homem, talvez sua mais evoluída forma de simbolização. Antes que esse ser fosse capaz de uma fala articulada, já existiam nele expressões evidentes de uma atividade muito peculiar, por exemplo: quando um membro do grupo morre e seus despojos são enterrados, e mais, é presenteado com alimentos, utensílios e outros objetos. O que este ser, que ainda não fala, está dizendo? – Que existe nele um sistema de crenças, que lhes exigem determinadas atitudes … Rito!
Rito é o ato que liga o Homem ao seu sistema de crenças, aquilo que ele faz para satisfazer ou defender-se de seus deuses (ou de suas necessidades internas). Rito é a liturgia, é a religio, a religião. É a necessidade em ação! Mas, mesmo sendo ato, não é um ato vulgar, é um ato simbólico. É no contexto dos rituais que primeiramente nos encontramos frente ao símbolo, aquilo que faz a ponte entre o ato e aquilo que ele significa. “O símbolo traduz em termos de realidade objetos irreais” .
Compreender e explicar o mundo à si mesmo, ao outro, e as relações estabelecidas entre estes elementos é função simbólica – dela, ou com ela, surge o rito e mais tarde, transformando sentido em forma, o mito.
Pela citação de Jung colocada em epígrafe, podemos deduzir sua crença de que a linguagem mítica, contrariamente a outras , não se dirige à mente racional.
Enquanto prática terapêutica que se utiliza de diferentes canais expressivos, a Arteterapia, tanto quanto o Mito, é uma via de acesso ao inconsciente, que atua no campo simbólico da atividade humana.
Ambas as linguagens dirigem-se, a um substrato psíquico profundo que as apreendem mesmo sem as “compreender”, ou as compreendem sem saber como, nem porque.
A clínica junguiana se utiliza da amplificação do símbolo para facilitar o entendimento deste pelo cliente. Como ferramenta para tal, a Mitologia contribui com diversas imagens e a Arteterapia, com variados instrumentos que facilitam a expressão dessas imagens num plano concreto (gestual, figurativo, sonoro etc.). Ambas são profundamente esclarecedoras e terapêuticas, possibilitando a compreensão do símbolo pelo Ego.
Já que o mito não pode ser definido pelo objeto de sua mensagem, o que o demarca é a maneira como esta é proferida. Mito é tanto uma determinada forma de dizer algo, quanto uma fala dirigida a uma instância psíquica específica: o irracional, o ilógico – o inconsciente.
As técnicas expressivas em si trazem possibilidades que se transformam através do fazer artístico. Elas ganham forma no desenho, na música, na dança, no gesto, na máscara, no personagem, na escultura, no pano tecido … Nas múltiplas construções de cada ser. Tal processo também não se dá de forma lógica e racional. É o inconsciente que rege. Mesmo quando a mente consciente determina o que é para ser feito, o resultado final mostra a impossibilidade de se seguir o que se tentou estabelecer previamente.
1 AUGRAS, Monique, A Dimensão Simbólica, Ed. Vozes, Petrópolis, 1998, p.10, citando Georges Dumézil.
2 A linguagem artística tem, seguramente, abrangência semelhante à mítica.
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