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ESPIRITUALIDADE NA PRÁTICA CLÍNICA
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A semente de Deus está em todos nós.
Sendo-lhe dado um lavrador inteligente e esforçado,
ele medrará e crescerá para tornar-se Deus, de quem é semente; e consequentemente, seus frutos serão a natureza divina.
As sementes de pêras crescem e se transformam em pereiras, as sementes de nozes em nogueiras e a semente de Deus em Deus. (1)
Mestre Eckhart
A experiência é um acesso ao conhecimento, mas a experiência não é um conhecimento, porque o conhecimento é(2). E a experiência mais íntima do ser humano refere-se à experiência religiosa, que permite a conexão e o conhecimento do divino em suas múltiplas formas. Esta só pode ser expressa simbolicamente.
Compreender e explicar o mundo a si mesmo, ao outro, e as relações estabelecidas entre estes elementos é função simbólica. O símbolo nos liga ao desconhecido e só é compreendido
quando se chegou a despojá-lo de suas formas, para nele encontrar a experiência pura(3).
Para Jung o símbolo é o que realiza a mediação entre o vivido/sentido e o concebido/imaginado. Tem um significado e um objetivo transcendentes e que se expressam por meio de imagens(4). Carrega um significado coletivo e um sentido individual. O primeiro é objetivo, referente ao próprio Inconsciente Coletivo. O segundo é subjetivo, tendo uma representação para o sujeito, própria do Ego e da Consciência.
O Símbolo é portador de significados no fluxo entre Consciência e Inconsciente. Traz na concretude da imagem algo apreensível pela Consciência e encobre algum conteúdo inconsciente.
A realidade psíquica consiste em imagens primordiais (arquétipos), sendo estas, a única realidade direta vivenciada pela Psique. Integra forma, sentido e significado.
As experiências simbólicas, segundo Jung, são sempre numinosas por serem fascinantes enriquecedoras e misteriosas.
É através da função simbólica que surge o rito e, mais tarde, transformando sentido em forma, o mito.
Entende-se por rito
… o ato que liga o Homem ao seu sistema de crenças, aquilo que ele faz para satisfazer ou defender-se de seus deuses (ou de suas necessidades internas). Rito é a liturgia, é a religião, a religião. É a necessidade em ação! Mas, mesmo sendo ato, não é um ato vulgar, é um ato simbólico. É no contexto dos rituais que primeiramente nos encontramos frente ao símbolo, aquilo que faz a ponte entre o ato e aquilo que ele significa(5).
Diz Jung, as pessoas … no rito estão próximas de Deus; são até mesmo divinas(6). Assim, sob a forma abstrata, os símbolos são ideias religiosas; sob a forma de ação, são ritos ou cerimônia(7).
Com a conquista da linguagem verbal, surge o Mito. Este é uma fala, uma comunicação, que trás, portanto, uma mensagem.
Os ritos e mitos estão na base da construção de todas as religiões. Pode-se observar sua transformação no decorrer do tempo, sendo que os antigos deuses e ritos, ganharam novos
nomes e novas formas, sendo substituídos de acordo com as necessidades dos diferentes povos, suas culturas e sua vida social e política.
Por definição, tudo aquilo que é divino situa-se além da nossa capacidade de compreensão.
Assim, a religião é o reconhecimento das realidades mais elevadas que a consciência não consegue compreender e, quando levada à plena fruição psicológica, produz a unidade interior e a totalidade do ser humano(8).
Sob a ótica junguiana, todas as religiões recolhem e conservam imagens simbólicas advindas do Inconsciente Coletivo, e são elaboradas em dogmas, realizando, assim, conexões com as estruturas básicas da vida psíquica.
Jung utilizava os termos “Deus” ou “divindades” no contexto simbólico. Para ele ambos se encontram como tais muito além do alcance humano. Revelam-se a nós como imagens psíquicas, isto é, como símbolos (9). E, os símbolos, possuem características culturais de arquétipos universais, sendo, cada um, produtos únicos da experiência de grupos específicos com suas sensibilidades próprias.
Mas, o termo religião é amplamente utilizado, podendo ser interpretado de diferentes formas.
Sob esse prisma, a religiosidade poderia ser desenvolvida, cultivada ou aprofundada, como também poderia ser negligenciada, deturpada ou reprimida. Visto ser uma função psíquica e, como tal, está em busca de um meio de expressão, um caminho para dar vazão à sua carga energética, que pode assumir as mais variadas formas.
Com esse entendimento, o termo religião ou religare traduz-se em tornar a ligar e a função da religião é estabelecer uma ligação entre o consciente e os conteúdos do inconsciente. É a libido que constrói imagens religiosas, representando o laço que nos vincula à nossa origem.
Jung acreditava que o objetivo da vida era a manifestação do núcleo único ou individual, a que denominou “Self” (ou Si-Mesmo), que é inerente a cada pessoa.
Entende-se por Self o arquétipo central do inconsciente coletivo, como o sol é o centro do sistema solar. O Si-mesmo é o arquétipo da ordem, da organização e da unificação; atrai para si e harmoniza todos os arquétipos e as suas manifestações em complexos e consciência. Unifica a personalidade, dando-lhe um sentido de “unicidade” e “firmeza”.
Trata-se do arquétipo que é o centro regulador e unificador da psique total (consciente e inconsciente). Sua meta é a inteireza e a completude psicológicas. É um princípio numinoso, transcendente e imutável, presente em todas as coisas.
No nascimento, tudo é Self: o ego latente está em completa correspondência com ele. Com o passar do tempo, porém, o ego e o Self começam a se separar.
À medida que crescemos, e no decorrer de um desenvolvimento normal, o Ego vai ficando cada vez mais diferenciado do Self. Isso facilita a realização das tarefas da primeira metade da vida, onde se faz necessário estabelecer um senso de identidade pessoal, que possibilite ao sujeito desenvolver uma carreira, casar-se ou entrar num relacionamento significativo, dar à luz e criar filhos, contribuir com a sociedade, e se tornar independente da família de origem.
Na meia idade, os desafios psicológicos modificam-se. Ocorre, então, um movimento natural na direção do Self: a individuação. Esta é ao mesmo tempo um princípio e um processo que está subjacente a toda atividade psíquica.
Tudo aquilo que vive amadurece. O carvalho já está imaginado dentro da bolota. A flor já está presente, se não ainda visível, dentro da semente. Para Jung, o mesmo acontecia com os seres humanos. Temos dentro de nós quem devemos ser. Mas este caminho da individuação, segundo Jung, não é apenas um processo natural que simplesmente “acontece”. Não é um processo passivo. Pelo contrário, precisa ser experimentado conscientemente, isto é, com conhecimento.
De fato, é esta ideia de que a individuação é um processo consciente que a torna tão importante. Caminhamos para a inteireza quando começamos a nos conhecer. Este conhecimento depende de um relacionamento vital, de um diálogo, de uma dialética, entre o ego e o inconsciente.
Para Jung, a meta não é ser perfeito e, sim, ser inteiro. A inteireza, por definição, inclui um conhecimento de todos os aspectos da nossa personalidade, inclusive aquelas características que preferíamos não reivindicar para nós. Jung observou:
A meta não é superar nossa psicologia pessoal, tornar-se perfeito, mas familiarizar-se com ela. Assim, a individuação inclui um conhecimento crescente da própria realidade psicológica singular, inclusive de forças e limitações pessoais, e ao mesmo tempo uma profunda apreciação da humanidade em geral.
O valor do processo está, antes, naquilo que acontece ao longo do caminho; aquilo que nós aprendemos a nosso respeito, sobre a experiência de ser humano, sobre o nosso relacionamento com nós mesmos, com a vida inteira e com o cosmos. É a própria jornada que é o destino. Jung escreveu: A meta é importante, mas somente como ideia. O essencial é o opus que conduz à meta: essa é a meta da vida inteira.
E estamos sendo movidos nesse caminho pelo nosso próprio empenho interior em nos tornar quem sempre deveríamos ser. E esse processo leva naturalmente a uma abertura do espírito, a uma sabedoria interior mais profunda, ao esclarecimento. Neste lugar é possível amar incondicionalmente a si mesmo e aos outros. Mas a estrada nunca é regular, nem fácil. Requer coragem e fé no processo, para abandonar a mentalidade coletiva, para sair do que é seguro e conhecido. Esta ideia de partida daquilo que é seguro para enfrentar o desconhecido e embarcar em aventuras que levam em conta uma transformação do Self é descrita em contos, histórias e mitos, e pode, também, ser observada em esculturas, desenhos e pinturas, provenientes de todas as culturas e ao longo de todos os períodos da História.
Para Jung, o Self incorpora alma, mistério, Deus-imagem dentro, a essência básica que não pode ser conhecida.
Sua ideia a respeito do Self está mais próximas das escolas orientais de pensamento e dos místicos cristãos do que das preocupações habituais da psicologia, uma vez que o aspecto transcendente da consciência humana e o espectro da consciência, apontam para a expansão da mesma e para sua fusão com o infinito.
Para ele, no nível do Inconsciente Coletivo, a pessoa percebe a unidade e a inter-relação de todas as coisas. Cada coisa, pessoa, animal, planta, da menor partícula atômica à maior galáxia, todos são partes do Um.
1 In CAVALCANTI, Raïssa – O Retorno do Sagrado: a Reconciliação entre Ciência e Espiritualidade. São Paulo: Cultrix, 2000, p – 208.
2 FRAISSE, Anne – Fonte de Fogo: Ensinamento e Iniciação: Vida, Morte e Renascimento num Percurso Analítico. Rio de Janeiro: Mauad, Bapera, 1998 – p. 58.
3 HUMBERT, Élie G. , In FRAISSE, Anne – Fonte de Fogo: Ensinamento e Iniciação: Vida, Morte e Renascimento num Percurso Analítico. Rio de Janeiro: Mauad, Bapera, 1998, p – 83.
4 CAVALCANTI, Raïssa – O Retorno do Sagrado: a Reconciliação entre Ciência e Espiritualidade. São Paulo: Cultrix, 2000, p – 145.
5 BAPTISTA, A. L. e RIBEIRO, M. L. – Mitologia e Arteterapia: uma Vivência Terapêutica, POMAR – Revistas Imagens da Transformação. Rio de Janeiro: Pomar v. 8, 2001, p – 18/19.
6 JUNG, C.G A Vida Simbólica. Petrópolis, RJ: Vozes. Vol. XVIII/1, 1998 – par. 273.
7 JUNG, C.G A Energia Psíquica. Petrópolis, RJ: Vozes, Vol. VIII-1, 1997 – par. 45-46.
8 HOELLER, Stephan – A Gnose de Jung e os Sete Sermões aos Mortos. São Paulo: Cultrix, 1991 – p. 252/253.
9 JUNG, C.G – A Vida Simbólica. Petrópolis: Vozes. V.XVIII/2. 2000, pag 296.
10 JUNG, C.G – A Energia Psíquica. Obras Completas, vol. VIII – 1, Petrópolis: Vozes, 1997 – par. 57.
11 JUNG, C. G. – Civilização em Transição. Obras Completas, vol. 10 – Petrópolis: Vozes, 1993
12 HALL, C. S. e NORDY, V. J., A Primer of Junguian Psychology, Nova York, New American Library, 1973 – p. 51.
13 CAVALCANTI, Raïssa – O Retorno do Sagrado: a Reconciliação entre Ciência e Espiritualidade. São Paulo: Cultrix, 2000, p – 154.
14 BREHONY, Kathleen – Despertando na Meia Idade. São Paulo: Paulus, 1999.
15 Daryl Sharp, C. G. Jung Lexicon: A Primer of Terms and Concepts, Toronto, Inner City Books, 1991, p – 68.
16 JUNG, C. G. – A Psicologia da Transferência, Petróplis, RJ: Vozes, 1998, Vol. XVI, par. 400.
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